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Em tempos de Covid a distância social salva, a tecnologia aproxima e a confiança garante!

Por Leila Navarro

Você percebeu que agora neste período em que muitas empresas estão em Home Office e sem previsão de voltar a rotina presencial, os gerentes e diretores pedem reuniões com mais frequência? Que em algumas empresas, as reuniões passaram de semanal a diária? Que os relatórios que antes eram mensais, passaram a ser semanais? E que estão tão complexos e detalhistas, que os colaboradores acabam trabalhando mais de 10 horas por dia? Sendo assim, fazer relatórios se tornou praticamente mais um turno? Você percebeu que antes da pandemia seu gerente lhe dava mais tempo para executar uma certa tarefa e que agora em Home Office este tempo se estreitou? Aonde lhe dava uma semana, agora lhe dá horas?

Dias atrás estava mentorando uma pessoa que trabalha em uma estatal e estava me fazendo esta queixa, e pela minha vivência sendo contratada para fazer Workshops sobre Confiança em empresas, vejo que é muito recorrente essa questão e que hoje não é privilégio, mas uma constatação de uma mudança radical e abrupta de rotina em todos os setores do trabalho. Não estávamos preparado e não sei se há jeito de se preparar, principalmente em um país como o nosso, onde a confiança é minoria absoluta! Dizem que: “Nós brasileiros somos um dos países que temos menos confiança um no outro no mundo”, como não tenho dados estáticos, não posso comprovar, mas, como sou brasileira há muito tempo, digo: esta afirmação faz sentido!

Na minha visão, essa atitude dos líderes e gestores é falta de confiança e “corporalidade” (pertencimento). Vamos por partes! Vou falar primeiro da corporalidade.

O cérebro não distingue realidade de imaginação. Lembro de uma história verídica que foi contada em um curso que fiz de Neurociência, no qual o professor dizia que na guerra do Vietnã um soldado ficou preso por anos numa solitária e como não tinha o que fazer, ficava se imaginando jogando golfe, treinava o tempo todo jogadas e estratégias mentalmente. Quando foi libertado e voltou aos USA (Estados Unidos), foi campeão deste esporte e assim constatou que todo o seu tempo de imaginação realmente foi muito efetivo. Por esta e outras experiências comprovadas pela Neurociência, podemos concluir que o fato de as pessoas não estarem mais indo presencialmente na empresa, mas sim só se vendo e fazendo tudo online, cada vez mais vai se dando uma sensação de não pertencimento, de distanciamento, de vazio, de desconexão, de solidão…. tudo isto são percepções reais e imaginárias ao mesmo tempo. Mais uma questão para colocarmos na conta do mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo), concorda?

E agora vamos para a Confiança, que a meu ver é uma questão mais complexa e não tem nada de imaginação!

No meu livro, Gestão por Confiança, que escrevi com o Prof José Maria Gasalla, nós apontamos quais são os comportamentos que inspiram confiança, são eles: consciência, clareza, coerência, consistência, cumprimento e coragem. Neste momento de isolamento social, acredito que todos estes comportamentos estão sendo afetados – tem um que me chama mais atenção – é a falta de coerência, por que era de um jeito no presencial e agora no Online será que tem que ser diferente?

Confiança ou se tem ou não se tem, não existe meia confiança e uma das formas de se sentir que o outro confia em mim ou não é pelo controle. O controle forma uma balança com a confiança, quanto mais controle eu tenho menos confiança existe, quanto menos controle mais confiança. O controle é muito caro, exige tempo extra, provoca intriga, medo de perder e se computarmos esse prejuízo, muitos de nós já teríamos dado mais crédito a uma gestão na base da confiança.

A confiança é uma via de mão dupla e parte da liderança quando eu confio, o outro confia de volta e todos nós sabemos por instinto que uma vez perdida a confiança não tem volta, afinal gato escaldado tem medo de água fria, portanto a pessoa que se sente que confiam nela, não quer perder esta dádiva. Quando alguém confia na gente, aumenta o nosso grau de confiança em nós mesmos, aumenta nossa responsabilidade, compromisso e não queremos decepcionar o outro. É muito forte! Quando vemos que um coach confia em um esportista mais do que nele mesmo, é isso que faz o esportista não desistir! Mas, algo importante a se dizer: Confiança não se perde porque o outro talvez não supre as expectativas, os resultados, os combinados… não se pode culpar! Confiamos no melhor de alguém, e se algo não acontece como planejamos, então é preciso recalcular a rota afim de melhorar o que se pode fazer para cumprir determinado objetivo. A confiança tem uma força que não valorizamos. Vi um pai uma vez me dizer que a mina da tranquilidade em relação a seus filhos adolescentes, é que sempre quando eles iam sair de casa, ele dizia: O pai confia em vocês! E aí Leila, isto é garantia absoluta? Confiar não traz garantia absoluta, mas não confiar e controlar também não! Nas minhas contas, se ganha mais no confiar do que no não confiar e temos muitos exemplos hoje em empresas em que muitos funcionários e colaboradores já trabalham a distância e outras empresas que já haviam no presencial, aberto mão do controle pela confiança.

Você sabia que nas penitenciárias, os carcereiros tem uma técnica de gerar desconfiança entre os detentos para enfraquece-los? Porque se todos os detentos confiarem um no outro, o número de carcereiros teria que ser maior que o número dos cumpridores de pena, concorda? Acho que não teria muros para detê-los! A força da confiança é imensa! Quando se confia no outro se salta no escuro. Nós já tínhamos uma questão de falta de confiança em nossa cultura, ficando lado a lado da operação, mas agora com a distância temos que repensar. Há mais um agravante nesta situação, não estamos podendo confiar na situação porque não se tem previsão do que será, não se tem ideia de como vai caminhar esta nova realidade e se um dia voltar totalmente como era? Essa incerteza acaba nos provocando medo e a desconfiança vem a tona novamente. Não é fácil liderar nestas condições!

Na minha visão, temos que ser mais práticos e começar de dentro para fora. A base na verdade é a autoconfiança! Quando eu tenho autoconfiança, eu inspiro confiança no outro, o outro retribui esta confiança, se senti fortalecido e quando duas pessoas confiam uma na outra se dão as mãos e saltam no escuro. Duvidamos da nossa capacidade de se adaptar às novas circunstâncias. Trocamos ser resilientes para ser ansiosos, mas não tem que ser assim! O medo leva o passado ao presente e a confiança leva o presente ao futuro! Essa frase deixa bem claro que precisamos confiar para criar algo promissor ao que está por vir. É um Novo Agora! Um Novo Momento! Você precisa levar novos valores nessa retomada, afinal estávamos correndo tanto que a terra precisou parar um pouco para que alma pudesse se juntar ao corpo. Em tempos de Covid a distância social salva, a tecnologia aproxima e a confiança garante! Da mesma forma como assimilamos crenças negativas e limitantes que prejudicam a confiança em nós mesmos, nos outros e na vida, podemos transforma-las e aumentar nosso nível e percentual de CONFIAR. Para começar, temos que nos conscientizar que não existem verdades absolutas. O que existe é a verdade que cada um vê a partir de seus modelos mentais e da interpretação que faz dos fatos.

Talvez você discorde desse raciocínio e argumente que não confia nos outros porque eles já decepcionaram ou decepcionam você algumas vezes. Sinto muito, mas ainda assim se trata de uma questão de projeção, porque você deve ser muito exigente consigo mesmo. Observe que a confiança é um jogo de espelhos. Trata-se de projetar sob nós mesmos para ser capazes de ver os outros sob uma mesma ótica. Um outro que não tem que ser perfeito, nem ser como nós. Apenas um legítimo outro. E então, preparados para saltar no escuro?

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