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As três perguntas do imperador

Por Leila Navarro

Havia um imperador que acreditava poder reinar satisfeito, sem o risco de cometer nenhuma falha, desde que conhecesse a resposta a três perguntas:

Qual é o tempo mais oportuno para fazer cada coisa?

Quais as pessoas mais importantes com quem trabalhar?

Qual é a coisa mais importante de ser feita?

O imperador prometeu dar um alto prêmio ao súdito que fosse capaz de responder às perguntas. Inúmeras pessoas dirigiram-se ao palácio e ofereceram diferentes respostas.

Alguém aconselhou o imperador a fazer um planejamento completo, dedicando cada hora, dia e ano às tarefas do seu planejamento; só assim faria cada coisa no tempo certo. Outro observou que seria impossível planejar tudo com antecedência, de modo que seria preciso deixar qualquer divertimento vão de lado e passar o tempo inteiro atento a tudo, para saber o momento certo de cada coisa. Outro disse que o imperador não poderia ter a precisão e a competência necessárias para decidir quando fazer cada coisa, deixando aos conselheiros essa tarefa. Uma enorme quantidade de respostas, as mais diversas, foi dada para cada pergunta, mas nenhuma satisfez completamente o imperador.

Ele decidiu, então, sair à procura de um eremita que vivia na montanha e que diziam ser um homem iluminado. Dizia-se que o ermitão jamais deixava a montanha e só recebia os homens humildes. Assim, o imperador decidiu disfarçar-se de camponês e ir ao encontro do sábio. Acompanhado por seus guardas até o pé da montanha, o monarca ordenou que lá o esperassem e subiu sozinho.

Encontrou o eremita lavrando uma pequena horta ao lado de sua cabana. O ancião, ao ver o visitante, acenou com a cabeça e continuou o árduo trabalho. A cada golpe de enxada que desferia contra o solo, dava um profundo suspiro, demonstrando o grande esforço que empreendia na tarefa.

O monarca aproximou-se do sábio e disse que fora até ali para lhe fazer três perguntas. Ao terminar de fazer as perguntas, ficou esperando que o eremita as respondesse, mas ele se limitou a lhe dar um amistoso tapinha e continuou a capinar a horta.

Alguns minutos se passaram e o imperador disse:

– Você deve estar cansado. Deixe-me cavar um pouco.

Depois de ter cavado dois canteiros inteiros, o imperador tornou a fazer as perguntas, mas o eremita novamente não as respondeu. Em vez disso, apontou para a enxada e disse:

– Já descansei, posso retomar meu trabalho agora.

O imperador, porém, não lhe devolveu a enxada e continuou cavando. Assim se passaram as horas até que o sol começou a se pôr. O imperador deixou a enxada, sentou-se ao lado do eremita e disse:

– Vim até aqui para lhe fazer três perguntas, mas se você não puder responder basta me dizer isso que eu voltarei para casa.

O sábio ergueu a cabeça, como se escutasse algo, e perguntou:

– Você está ouvindo alguma coisa?

Em segundos, um homem ofegante, que caminhava com dificuldade, surgiu à frente dos dois. Tinha as mãos ensangüentadas sobre o estômago e caminhou na direção do imperador, mas tombou no meio do caminho.

O monarca afastou as mãos do homem e viu que havia um profundo corte em seu abdômen. Com a própria camisa, limpou a ferida e usou-a para estancar o sangramento. Depois deu de beber ao ferido e levou-o para a cabana do eremita, pois a noite caía e começava a fazer frio. Esgotado por ter subido a montanha e capinado o dia todo, o imperador sentou-se no chão e ali mesmo adormeceu. Só acordou com o dia claro, encontrando o homem ferido já acordado e olhando fixamente para ele.

– Perdoe-me, por favor – disse o ferido com voz fraca.

– O que fez você para me pedir perdão? – perguntou o imperador, surpreso.

– Vossa majestade não me conhece, mas eu o conheço. Tornei-me seu inimigo quando meu irmão morreu numa guerra para proteger seu reino e minhas terras foram confiscadas. Jurei matá-lo e há muito esperava a oportunidade para isso. Quando soube que o senhor ia subir sozinho a montanha, tentei segui-lo, mas seus guardas me viram e tentaram me impedir. Eu os enfrentei e fui ferido, mesmo assim consegui escapar. Subi a montanha até encontrá-lo, mas tombei diante de Vossa Alteza. Tinha a intenção de matá-lo, e Vossa Alteza salvou minha vida. Não tenho palavras para dizer o quanto estou envergonhado e também agradecido. Se sobreviver, eu me tornarei seu servo para sempre. Por favor, perdoe-me.

O imperador sentiu extrema satisfação por haver se reconciliado com um inimigo tão facilmente. Não só o perdoou como prometeu chamar seus médicos para tratá-lo e devolver-lhe todas as propriedades confiscadas.

Depois de chamar os guardas e ordenar que levassem o ferido para casa, o imperador foi se despedir do eremita. Antes, porém, fez suas três perguntas uma última vez. O eremita, então, respondeu:

– Suas perguntas já estão respondidas

– Como assim? – perguntou o imperador, intrigado.

– Ontem, se o senhor não tivesse se compadecido de mim e me ajudado a cavar a terra, talvez tivesse sido assassinado enquanto descia a montanha para voltar para casa. Portanto, o tempo mais oportuno foi aquele em que esteve cavando, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante a fazer foi me ajudar. Mais tarde, quando o ferido apareceu, o tempo mais oportuno foi aquele em que esteve tratando do ferimento dele, pois sem seu socorro talvez ele tivesse morrido e o senhor não teria a oportunidade de se reconciliar. Naquele momento, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar do seu ferimento foi a coisa mais importante a fazer. Lembre-se de que só existe um tempo importante: o agora, porque o presente é o único tempo sobre o qual temos domínio. A pessoa mais importante é aquela que está à sua frente e a coisa mais importante é fazer o bem a ela.

Há quem jamais deixa de agradecer pelo pão nosso de cada dia. Além de agradecer, acho importante fazer a pergunta nossa de cada dia. Quem se questiona está acordado, vivo, consciente. E, para quem está consciente, a vida flui melhor.

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