jun 1, 2011

Postado por emLeila Responde | 3 Comentários

Como anda a sua capacidade de ouvir o que não foi falado?

Há algumas semanas, eu recebi via Facebook o seguinte comentário: “Oi Leila! Sou seu fã. Estive ouvindo a rádio da FIA e consultei uma entrevista que você concedeu à rádio. Uma frase que você falou me deixou muito feliz e impressionadíssimo: é preciso ouvir as pessoas sem que elas nada falem. Achei muito profundo e gostaria de saber mais como é possível ter tal percepção.” O autor desse comentário foi Edinaldo Diniz, ao qual eu agradeço imensamente pela inspiração! Foi a partir daí que criei o post desta semana. Muito obrigada Edinaldo.

Cilene é minha secretaria particular. Ela mora em minha casa durante a semana e, na sexta à noite, vai embora para a sua. Ela depende de transporte público e utiliza os trens da CPTM, os quais estão quase sempre lotados. Nessas circunstâncias, para evitar contratempos, as pessoas costumam cuidar muito bem de seus pertences. Certo dia, uma senhora chama a atenção de Cilene. Mesmo com muitas pessoas ao seu redor, essa senhora abre sua bolsa, tira todos os seus pertences de dentro, colocando um pouco em seu colo e outros objetos ao seu lado – qualquer movimento mais brusco levaria tudo ao chão. Depois, ela abriu outra bolsa e começou a fazer o mesmo. Aquilo tudo chama a atenção da minha secretária, mesmo porque aquele não é um comportamento usual em um coletivo lotado e a senhora aparentava estar bastante acostumada com aquela rotina.
Ao chegar à estação final, as duas obrigatoriamente descem. No ponto de ônibus, Cilene vê novamente a senhora, mas, desta vez, paralisada como se não soubesse o que fazer ou para onde ir. Prestativa, Cilene se aproxima e diz:
- A senhora precisa de dinheiro para o ônibus? Eu posso lhe dar! Tome!
Mesmo antes de responder, a senhora começa a chorar comovida e desesperada ao mesmo tempo, pois, ao ser questionada, ela pôde externar todo o seu desespero. Ela não se sentia mais sozinha, pois alguém a ouvia e, entre soluções, perguntou:

- Como você ouviu o grito do meu desespero? Como você percebeu que fui roubada? Você não vai precisar desse dinheiro?

A senhora então contou que guardava o dinheiro da condução do mês dentro de uma bolsinha, enrolado em um lencinho. Quando ela foi procurar o dinheiro, só encontrou o lencinho e a bolsinha. O dinheiro havia sumido e ela suspeitava que havia sido furtada no trabalho.

Que percepção de Cilene! Isso é ouvir o que o outro não diz, é estar consciente de si, do outro e do todo. Isso é empatia, o que, para mim, representa amar. Acho que esta é uma das características que faz de nós seres humanos – ter empatia, se colocar no lugar do outro, perceber o outro, vestir o sapato do outro… Mas a questão é que, na correria quase insana em que vivemos, passamos a não ter consciência nem de nós mesmos. Se não conseguimos nos ouvir, menos ainda temos condições de escutar o que o outro diz.

Certa vez fui à medica para fazer exames anuais de rotina. Após a doutora fazer uma análise geral ela disse: Leila, seus exames acusam que você teve uma pneumonia e está saindo dela agora. Você está com uma fratura espontânea de calcâneo, está com um processo alérgico e desenvolvendo uma possível artrite reumatóide. Com esse relatório eu ri e disse: “vai ver que desencarnei e nem me dei conta porque eu não estou sentido nada disso”.
Só a partir daí me dei conta que havia realmente me sentindo um pouco quente e com dor nas costas. Associei as dores no pé a tal fratura e assim por diante. Sem receio de errar, afirmo que a grande maioria das pessoas não escuta o próprio corpo, a sua intuição, as suas necessidades, seus medos, suas dores, seus sonhos… Sendo assim, como pode escutar o outro?
Sempre digo que a vida é uma experiência espiritual em um corpo material, portanto o nosso corpo é nosso veículo, nossa nave, nosso “Avatar”. Nessa dimensão não tem sentido não cuidarmos dele e deixarmos de garantir a sua melhor performance. Mas, para isso precisamos conhecê-lo, perceber seus sinais, escutá-lo.
Comecei, então, a fazer alguns exercícios comigo mesma e isso me ajudou muito a começar a desenvolver a consciência do outro a partir da consciência de mim mesmo. Destaquei aqui algumas ferramentas interessantes, práticas e que certamente vão ajudar nossa capacidade de ouvir o que não se fala. Eu já estou exercitando. Entre nessa você também!

1- Fazer um diário. Um exercício muito simples, juvenil e bem poderoso – um ótimo hábito para entrar em contato consigo mesmo!
2- Depois, comecei também um exercício mais complexo. Toda noite, antes de dormir, faço uma retrospectiva consciente de todo meu dia de trás para frente, com distanciamento porque o objetivo não é perder o sono, mas tomar consciência de si, do outro e do todo, escutando o silêncio dos momentos.
3- Praticar meditação.
4- Há pouco tempo aprendi a terapia do amar.
5- Ler o livro “O poder do agora”. Para ouvir o outro é necessário, no mínimo, estar presente de corpo e alma no aqui e agora.

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  1. Muito interessante esse post leila, eu realmente nunca parei pra pensar nessa questão de ouvir o que não foi falado.., de se por no lugar dos outros e assim poder ajudar.. eu ajudo e sempre gosto de ajudar as pessoas mais, realmente, não tinha parado pra ver o quanto isso fortalece e faz bem, não so a quem está sendo ajudado, como também a nos mesmos… Muiito obrigada por mais um post interessantissimoo!!.

    Patricia Moreira. – Natal/RN

  2. Simone Angelica diz:

    Gostei muito. Realmente não sabemos ouvir através dos gestos.Beijo grande.
    Natal-RN

  3. Poderosas, ouvir a nós mesmos já não estamos tão acostumadas, não é? É importantíssimo fazer esse exercício de nos ouvir e ouvir os outros. Leila.

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